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Agroflorestas

Agroflorestas são florestas plantadas para fins específicas, com toda a biodiversidade, dinâmica e estrutura de uma floresta natural. A adoção do modelo agroflorestal é muito mais profundo do que uma simples troca de modelo agrícola: é a mudança na maneira de como nos relacionamos com a Natureza. Enquanto a agricultura convencional anule o ecossistema, impondo um modelo pobre (de um ou dois elementos), totalmente divorciado da realidade local, uma agrofloresta imita o ecossistema local, englobando dezenas ou até centenas de elementos.

É um sistema de produção tão parecido quanto possível com a forma original que a Natureza encontrou para aquele lugar, ao longo de milênios. A agrofloresta se baseia no RESPEITO, não somente para as pessoas que consumirão os produtos, mas sobretudo para todas as formas de Vida que ali habitam. O homem passa a cuidar de um sistema, que, como resultado, o presenteia com muitos produtos: frutas, folhas, raízes, madeiras, essências, carne, mel.

Uma vez implantada, uma agrofloresta exige um mínimo de cuidados e nenhum insumo de fora, tendo a mesma estabilidade de uma floresta nativa. Garante a sustentabilidade ecológica e financeira do agricultor (agroflorestador?)

É uma mudança radical, sobretudo no estilo de vida. A experiência mostra que esta mudança traz mais prazer e orgulho para o homem do campo, já que, cada ano que passa, a terra fica melhor, mais rica, produtiva, bela e cheia de vida.

Qualidade de Vida com Agroflorestas

A agricultura é vista como um “avanço” da civilização quando de fato marcou o começo do fim, provocando destuição dos ecossistemas e estratificação da sociedade entre aqueles que eram donos da terra, e aqueles que os serviam ( um conceito desconhecido entre os povos coletores). Marshall Sahlins, no seu artigo “A Sociedade Afluente Original” (The Original Affluent Society) cita pesquisa que mostram que os povos coletores trabalham na média de três horas por dia para conseguir uma vida satisfatória, enquanto que o agricultor trabalha oito horas para o mesmo efeito. (A mulher universitária norte-americana trabalha, na média, 70 horas por semana!) De fato, uma agrofloresta, uma vez implantada, possibilita um estilo de vida parecido à vida dos coletores, deixando amplo tempo livre para desenvolver outros aspectos da vida ( arte, atividades sociais). (Os primeiros anos exigem muito esforço pela enorme quantidade de elementos que este sistema exige, na média de 30,000 plantas por hectare).

É importante ressaltar que uma agrofloresta “atrai" e limpa a água, revertendo a tendência mundial de ressecamento e assoreamento. Se o desmatamento resseca o clima, logicamente o reflorestamento re-umidifica a paisagem. Ernst Götsch, um dos fundadores do movimento agroflorestal no Brasil, viu 17 riachos nascerem , uma vez sua agrofloresta estabelecida.

Como Implantar uma Agrofloresta

Para chegar a uma floresta, a Natureza passa por etapas bem definidas: na terra nua vem primeiro os capins e plantas baixas ( muitas vezes floridas para atrair insetos e pássaros), depois os arbustos, seguidos por uma capoeira, depois disso vindo uma floresta seca (produtora de celulose), para finalmente chegar àquela floresta frondosa, úmida, luxuosa.

Ernst Götsch, de origem suiço, mas radicado no Brasil há 25 anos, adaptou a sucessão natural como estratégia para a implantação de agroflorestas. Usando todos os elementos da sucessão, ele encaixa uma fase dentro da outra no mesmo espaço de tempo, economizando assim muitos dos anos que a Natureza levará para criar uma floresta. Em termos práticos, ele consegue, em 3-4 anos, o que levará a Natureza 15 anos para conseguir. Isto se faz plantando todos os elementos juntos.

Assim, em vez de esperar uma fase se completar para depois começar outra, as fases se intercalam. Usa-se a poda para acelerar o sistema: quando uma fase (de plantas pioneiras, de arbustos, capoeira,etc.) está no auge, no ponto de começar a fase de declínio, estas plantas são podadas para deixar espaço para a próxima fase a surgir. Assim Götsch mantem o campo sempre “jovem” , em plena fase de crescimento.

Alguns dos princípios de trabalho mais importantes do sistema dele são:

1. Não deixar nada velho no campo ( que esteja no fim do seu cíclo), usando a poda seletiva para tirar estes elementos;

2. Ocupar todos os estratos do espaço vertical na hora de implantar. Um espaço não ocupado enfraquece o equilíbrio do sistema todo;

3. Ocupar todos os “estratos” temporais, plantando, juntos, elementos de todos os ciclos, desde o mais curto ( mostarda) até o mais longo (jacarandá);

4. Respeitar os sinais que recebe do sistema: quando trabalha sem vontade, é sinal que alguma coisa esteja fora de sintonia: o manejo está errado ou o momento inadequado ( a fase de lua, etc.). O sistema está sempre dando “feedback” para você;

5. As “pragas” e “doenças” são sinais de fraqueza no sistema, provavelmente por erros de manejo. Agradecemos estes “professores”, que nos ensinam como melhorar o nosso trabalho. Portanto não fazemos guerra contra ninguém. Não “combatemos” os insetos- tentamos entender o recado que eles nos transmitem. As formigas cortadeiras, por exemplo, têm o papel de juntar matéria orgânica para criar ilhas de fertilidade. Se acrescentarmos muita matéria orgânica ao sistema, as cortadeiras desaparecem. Continuam de fato presentes, como “faxineiras”, podando as plantas doentes, mas deixam de ser uma preocupação;

6. Crie sistemas ricos em matéria orgânica, plantando elementos para este fim, desde capim de corte até árvores leguminosas que serão podadas de vez em quando;

7. Confiar que a Natureza, no seu impulso inerente de criar condições para mais Vida no planeta, saberá levar qualquer sistema para frente. A nossa intervenção pode até acelerar o processo natural. Assim nos,também, criaremos mais condições para a Vida no planeta, através das estratégias específicas adotadas pela própria Natureza para cada lugar (que varia de um lugar para outro),que podemos copiar;

8. Deixar as plantas nativas como parte do sistema. Assim se morrermos ou sairmos do lugar, em poucos anos o sistema nativo domina de novo, apagando os nossos traços, sem deixar cicatrizes.

Elementos de uma Agrofloresta

1. Plantas de todos os ciclos: curto, médio e longo (desde rabanetes de 20 dias até árvores de ciclos de 200 anos);

2. Plantas para cada estrato (baixo, médio, alto) para ocupar completamente o espaço vertical, em todos as fases evolutivas do sistema (plantas de tamanho baixo, médio e alto dos ciclos curto, médio, e longo);

3. Plantas nativas;

4. Leguminosas (plantas que fixam nitrogênio) de todos os ciclos e estratos, inclusive árvores leguminosas;

5. Plantas medicinais;

6. Plantas marginais àquele clima ( que suportam mais chuva ou mais seca), para garantir a produção em anos de clima extremo;

Tipos de Agroflorestas

Toda agrofloresta terá os elementos acima citados, mas o conjunto pode visar um tipo de produção específico:

1. De frutas;

2. De forragem;

3. De madeiras;

4. Melíferas;

5. Mistas, de auto-sustento;

6. De climas diversos.

Embora tipicamente um modelo tropical, hoje existem agroflorestas neste modelo em climas temperados. Membros do Instituto de Permacultura da Bahia, orientados por Ernst Götsch, estão desenvolvendo modelos agroflorestais para o Sertão (climas secos) dos quais inclui-se o Projeto Policultura, do Instituto, e o Projeto Marizá, de Marsha Hanzi (em regiões diferentes).

Agrofloresta para terras secas

O carro-chefe do projeto está sendo a mais demorado para implantar, pois nos meses de seca morrem uma grande parte das plantas.

Mantemos o capim de corte (nossa mais importante produtora de massa) e algumas árvores durante os mêses de seca, com sistemas simples de irrigação, que não é nosso ideal.

A terra precisou de dois anos para chegar a um ponto de manter as árvores. Foram feitas faixas por volta das casas, com plantios extremamente densos e eventual irrigação. Sempre cobrimos todas as áreas com folhas de coqueiro e cascas de coco (dos brejos vizinhos), na falta de massa orgânica local em quantidades suficientes.

Com o calor e o vento extremos, a matéria orgânica oxida com muita rapidez. A nossa agrofloresta visa em primeiro plano as frutas: cajú, manga, goiaba, acerola, pinha, serigüela , umbú, cajá-umbú, limão vermelho, jamelão (jambolão), romã, licori, murici, mangaba, coco (irrigado), café (na sombra dos cajús), banana maçã (também na sombra dos cajús), tamarindo, eventualmente tâmara.

A meta é que a produção da castanha de cajú pague as despesas do ano ( pelos cálculos serão aproximadamente 500 pés).

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